Para que serve a liberdade?

A liberdade é boa, mas, até aonde ela vai? Ou, ate aonde ela deve ir? Para que serve a liberdade?

Para que serve a liberdade?

Já escrevi alguns artigos sobre a minha ideia do software livre como A ameaça eminente do software proprietário, A ameaça que os formatos proprietários podem causar e As incriveis vantagens que o proporcionas pelo software livre e de código aberto. Vou continuar essa abordagem devido ao meu ultimo artigo.

 Um mês atrás eu vi uma critica que fizeram a respeito do artigo que o Dionatan escreveu sobre quais distros que podem morrer. O comentário foi o seguinte:
Foi simplesmente o comentário mais idiota que já li.Por que maldita empresa?
 Recebi também uma critica do mesmo estilo no meu artigo O dia em que o pinguim adquire asas e cauda de um dragão de ferro. A critica dizia que o LLVM não era livre pelo simples fato de haver empresas por trás de seu desenvolvimento.
Como se houvesse mal em empresas estarem envolvidas no projeto.
 Como se não bastasse, vi uma certa vez uma critica também ao LibreOffice quando foi postado a divulgação do II encontro LibreOffice. Uma pessoa comentou: "Se o software é livre a palestra tem que ser de graça. Estou fora."

 Não me entendam mal, gosto das quatro liberdades da GPL, acho muito interessante o que ela tem a oferecer, mas percebo que não conseguimos distinguir as coisas quando as vemos. Confundimos software livre com cerveja de graça; nem mesmo a GPL proíbe a comercialização de software livre.
 Linus mesmo afirma isso no artigo Sobre o futuro do Linux sem ele:
“Não é que você torna algo open-source por que é de alguma forma moralmente a coisa certa a se fazer,” ele diz. “É por que ele lhe permite fazer um trabalho melhor. E acredito que pessoas que acham que open-source é anti-capitalismo sejam inerentes e francamente estúpidas.”
 Não estamos sabendo para que serve a liberdade, o que fazer com ela. Isso acaba me lembrando certa historia que li sobre alguns bandidos que fugiram de uma prisão. Tendo obtido exito na fuga, logo eles estavam finalmente desfrutando da tão sonhada liberdade. Um dentre os fugitivos, não sabia o que fazer com a liberdade que ele tanto sonhara ter. Se não tomarmos cuidado, vamos acabar da mesma forma.

 Recentemente, postei um vídeo tambem sobre o paradigma Open Source:

 A ideia do UNIX ser livre tinha mais a ver com a questão de ideologia da época (a geração paz e amor, liberdade das autoridades). O código aberto do UNIX, mesmo que sem interesse comercial, acabou o tornando atraente devido a sua robustez (e foi o que aconteceu com o Linux).

 O problema que vejo, é que essa definição de liberdade entre nós, é muito mal elaborada. Ela precisa de um molde, de uma definição melhor, buscarmos o por que. Estamos desnorteados; muitos de nós nos tornamos cegos guiando cegos. Se não fosse verdade, não estaríamos tão divididos em nossas opiniões e ego, achando que uma distribuição é melhor do que a outra ao invés de nos unirmos e contribuirmos para assim obtermos um sistema (o Linux) cada vez melhor com o que cada uma delas tem de melhor a oferecer.
 Precisamos de uma definição coerente do que é liberdade, o que ela significa e o que fazer com ela.

 Um software não é bom somente pelo fato de ser livre/aberto. Não significa que ele é melhor do que o proprietário se ele não oferece solução pouco favorável ou possui uma comunidade pouco ativa, uma comunidade pouco envolvida no avanço e progresso do projeto, recebe pouca atenção.

 Viver somente de filosofia não é la grande coisa. Se caso quiser viver desta forma, não é problema, isso não é uma critica a quem quiser viver assim; o que estou mencionando aqui é que recursos financeiros se fazem necessários em qualquer área que ocupamos na vida para manter um projeto ativo.
 Pode ser que, você que está lendo agora, não precise; não há regra que não tenha exceção, Mas veja o caso do openmailbox que no site mesmo descreve o quanto eles precisam para manter o site funcionando:
Eles precisam de 12.707 Euros para manter o site no ar; sendo 120 Euros para o domínio, 144 Euros para o certificado Ssl e 13.720 para infra estrutura. 
 O wikipedia faz a mesma coisa, assim como vários outros projetos free/open source. Querem um exemplo para entender melhor o que digo? O Blender, que quase foi descontinuado e conseguiram arrecadar €100.000 para que o Blender não fosse descontinuado. Já pensou um software desse ser descontinuado sendo que ele é utilizando desde estúdios de TV a NASA?


 Essa é a beleza que eu vejo software livre e de código aberto; a contribuição que ele faz para a humanidade. Ele segue bem um padrão de uma universidade; um universidade forma pesquisadores e suas pesquisas tem que ser docente.

 Quando Ted T'so afirmou na Linuxcon: "Eu não faço por dinheiro, faço por que gosto do que faço."
outro desenvolvedor do kernel afirmou: "eu faço por dinheiro. Não me entendam mal, eu faço por que gosto, mas as contas vem. Eu preciso levar as crianças para a escola, pagar seu material didático; elas precisam vestir, se alimentar."
O alemão Christoph Hellwig, que é responsável pela parte de acesso ao HD/SSD do kernel, também respondeu: "eu também faço por dinheiro. Pela mesma razão e também por que gosto."
 Percebo que muitos que amam e defendem o movimento de software livre e de código aberto não tem uma boa definição do que é tal coisa.

 Quando Linus disponibilizou o Linux para download, ele afirmou que não queria ganhar dinheiro, mesmo recebendo e-mails de pessoas perguntando se ele queria que elas o doassem uma contribuição de uns 30 dólares para ajudar (apesar que ele mesmo afirmou que dinheiro seria útil. Ele pagava o computador com o dinheiro que recebia da escola e tinha que financiar o resto). Por questões acadêmicas Ele estava mais interessado que as pessoas pudessem ver o código, fazer modificações e melhorias para satisfação própria e em troca, ele poderia ver também o que as pessoas estavam fazendo, ter sempre acesso aos fontes, as melhorias, aprimoramentos e ele próprio usufruir de tudo isso.

 Para Linus, não deixando dinheiro entrar, afastaria as pessoas gananciosas. O Linux, em sua primeiras versões, não estava sob a GPL. Linus detinha todos os direitos autorais do Linux (a não ser que ele vendesse esses direitos) de acordo com convenção de Berna no século de XIX.

 A regra que Linus criara pelos direitos autorais concedidos a ele, rezava o seguinte:
 Você poderia utilizar o sistema operacional gratuitamente, contanto que não o vendesse e, se fizesse quaisquer modificações ou aprimoramentos, precisaria disponibilizar o código fonte (em oposição a binários, que são inacessíveis). Se não concordasse concordasse com essa regra, não teria direito de copiar o código fonte ou de fazer qualquer coisa com ele.
 Passado algum tempo, foi perguntado a Linus em um evento de UNIX (era comum pessoas irem munidas de disquetes com o Linux para vendê-lo) se elas poderiam comercializá-lo devido terem gastos como o disquetes e horas de trabalho para ter um sistema em funcionamento pronto para uso. Foi aí que Linus começou a repensar postura sobre a qual Linux não era para ser vendido, e na versão 0.12 do kernel, foi adotada a licença GPL.

 Perguntado por andrew Tunenbau a Linus (naquele debate sobre linux vs minix) se Linus queria que o Linux fosse comercializado, Linus simplesmente respondeu que sim. Andrew não respondeu mais nada depois disso. É tão vantajoso o Linux ser comercializado ou mantido por empresas com recursos financeiros que Linus mesmo afirmou que é assim que ele enche o tanque de gasolina de seu carro.

 Em um evento da Comissão Europeia de 2010, foi apresentado por Jesús García-García & Ma Isabel Alonso de Magdaleno do departamento de administração de negócios da universidade de Oviedo, um documente onde apresentam quanto seria necessário para o desenvolvimento do Linux. Pasmem, seria necessário um valor estimado de:
  • EUR 1,025,553,430
  • 985.74 desenvolvedores envolvidos
  • Estimadamente 167.59 meses (14 anos)

 Isso do kernel 2.6.11 ao 2.6.30 (imaginem hoje). Um documento assim foi apresentado também pela Linux Foundation, que o Dionatan me mostrou em um debate que tivemos enquanto eu escrevia esse artigo (coincidência ou não, tivemos a mesma ideia simultaneamente). Linux representa um eco sistema de 21 bilhões de dólares em 2007, de 25 bilhões de dólares em 2008 e sei la o quanto hoje. Nos últimos anos o desenvolvimento do Linux vem crescendo mais ainda.

 O mesmo caso aconteceu com o Debian em que calcularam quanto seria necessário para o seu desenvolvimento. Chegaram a barganha de 1.9 bilhões de dólares. Isso em sua versão 2.2, por que já na versão 7, ele menciona o seguinte 
Em minha análise, o custo projetado na produção do Debian Wheezy em Fevereireo de 2012 é de US$19,070,177,727 (AU$17.7B, EUR€14.4B, GBP£12.11B), fazendo o código fonte upstream de cada pacote valer um média de US$1,112,547.56 (AU$837K) para produzi-lo. Impressionantemente, Isso tudo é livre (de custo).
 Então, para as empresas se torna mais viável e mais interessante para as empresas contribuírem com o desenvolvimento do software livre e de código aberto, mantendo as suas contribuições no mesmo modelo, e poderem criar um negócio em torno dele (do que em muitos casos terem que desenvolver soluções proprietárias). O software será mantido sempre aberto, mas o modelo de negócio criado em cima do software livre e de código aberto pertence a empresa. com é o caso da Red Hat que é um modelo de negócio em torno de software livre e de código aberto (sim, algumas ferramentas dentro do Red Hat Enterprise Linux são proprietárias, mas utilizar software proprietário em conjunto com o livre se torna um modelo de negócio em torno do software livre). Hollywood é outro exemplo; utilizam fortemente Linux para produzir seus filmes (o software é livre, os filmes não). Da mesma forma a Valve, que contribui hoje com o desenvolvimento do Linux, está trabalhando no do SteamOS, disponibiliza o Steam gratuitamente (mesmo que não forma livre), e fatura com a venda de jogos (acredito que era isso que a Sega deveria ter feito, ao invés de ter utilizado o WindowsCE no DreamCast. Hoje ela estaria mais ou menos no estilo da Valve).

 Imagina se o Linux não fosse utilizado hoje em soluções comerciais, como as coisas seriam bem mais caras. Imagina se Santos Dumont não tivesse patenteado o avião como patrimônio da humanidade, como seria bem mais caro voar hoje.

 Minha definição de software livre: Somente de saber que uma solução proprietária (seja software, filmes, musicas, livros ou qualquer outro serviço ou produto) foi desenvolvido em software livre, eu já estou satisfeito; pois o software livre atingiu seu objetivo: Ele mostrou ser eficiente ao ponto de sua adoção, mostrou progresso, ganhou notoriedade, destaque e contribuições de empresas que precisam dele.
 Só o fato de ele ser estável e seguro é um fator muito bom que podemos usufruir bastante sem mesmo a necessidade de ficar tendo o código fonte (por que muitos que revogam que seja livre, nem mesmo sabem ler código fonte ao ponto de descobrir falhas, vulnerabilidades ou códigos espiões de empresas para vir a contribuir), mas gosto também de poder extrair o máximo dele de acordo com as minhas necessidades, como é o caso de compilar um programa de acordo com o que quero.


 Lembrem-se de que é preciso recursos financeiros para manter projetos; projetos possuem despesas mesmo eles sendo livres. É por essa razão que quase todos os projetos (de que posso me recordar) tem a sua sessão de doações. Caso uma empresa venha a fazer doações rotineiramente para o andamento de um projeto, ele não deixa de ser livre. Não é somente indivíduos que podem contribuir financeiramente; empresas também podem fazer isso e não é algo imoral ou ilegal.

 Tenho o manual, blog, canal no Youtube, documentação do Funtoo como também já participei da distribuição ipfire (que por falta de recursos financeiros, tive que parar). Meu canal e blog mesmo são monetizados e possuo conta do Patreon e KickStarter por essa razão. Até aproveito para pedir que se possível, desbloqueiem os adblocks para os nossos canais e blogs; recebemos pelos anúncios contidos neles e os adblock bloqueiam nossas receitas. Somente de você fazer isso, você já contribui com os nossos projetos. Se eu conseguir captar recursos financeiros para manter as minhas despesas, posso me dedicar melhor a eles sem ter a necessidade de sair para trabalhar formalmente e me dedicar a eles somente no tempo vago.
 Tenho outros projetos para a comunidade, mas isso fica para um futuro.

 Então, caso veja um projeto sendo financiado por alguma empresa, não o tenha como abominável. Não há nada de errado quanto a isso. Vamos trabalhar melhor e nossa definição sobre o que é software livre e de código aberto, vamos trabalhar no por que queremos e gostamos da liberdade.


Sou analista (bilíngue) de microinformática, professor de inglês, tradutor e interprete.

 Sou também redator no blog Diolinux e um dos tradutores da distribuição Funtoo. Já fiz parte da distribuição IPFire por um tempo também, uma distribuição que gosto muito na parte de administrar o servidor por uma interface web.
 Possuo um manual chamado Caixa de Ferramentas do UNIX traduzido por mim e revisado por mais amigos que abrange tanto Linux (dentre algumas distribuições) quanto Solaris, BSDs, Mac OS X e em alguns momentos o Windows (devido a integração cliente servidor).
 Recentemente estou trabalhando em um manual de migração para Linux.

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